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Dr. Gedegilson Moisés

“Se não dói, não é grave, né?”

Carlos tinha 43 anos, era saudável, se exercitava e nunca teve dor e também nunca imaginava ter um câncer de intestino. Quando começou a ver sangue nas fezes, achou que fosse hemorroida. “Comi pimenta demais ontem, deve ser isso”, pensou.

Passou um mês. Depois, dois. Quando finalmente foi ao médico, descobriu que estava com câncer de intestino em estágio III.

Essa é uma história real. E acontece com mais frequência do que você imagina.

câncer de intestino

Quem sou eu?

“Curar quando possível, aliviar quase sempre, consolar sempre.” – Hipócrates

Gosto de desafios e, em minha vida profissional, não é diferente. O universo e a complexidade do corpo humano deslumbram-me. É no centro cirúrgico que me sinto extasiado com a arte de oferecer cura através da cirurgia. Cada etapa deste processo ensina-me a ser um ser humano melhor.

Ouvir sobre as dores, angústias, medos, desespero e desilusões dos pacientes, acolhê-los e explicar todo o processo, gerando esperança, traz-me imensa satisfação. Este processo forma um vínculo de confiança enorme, muitas vezes fazendo-me sentir como parte da família dos pacientes.

Ao término de cada cirurgia, mesmo em meio ao cansaço, sobressai o sentimento de regozijo em praticar o dom e a habilidade que Deus me deu para contribuir com as pessoas que me procuram. No final de cada tratamento, vivenciar o antes e o depois, vendo a alegria e a vitalidade em cada um, com sorrisos no rosto, revitaliza a minha alma.

O câncer colorretal é o segundo tipo mais comum entre homens e mulheres no Brasil, e um dos que mais mata.

Mas o mais alarmante não é isso — é o fato de que muitos dos casos poderiam ter sido detectados mais cedo, se mitos perigosos não tivessem atrasado a procura por ajuda.

Neste post, vamos desmistificar cinco das crenças mais comuns que afastam as pessoas do diagnóstico precoce. Porque informação, nesse caso, é prevenção — e pode salvar vidas.

Mito 1: “Câncer de intestino é coisa de idoso”

Por isso, é fundamental estar atento aos sinais que o corpo emite e buscar ajuda profissional ao notar qualquer alteração.

Essa ideia ainda é muito comum. Quando alguém abaixo dos 50 anos ouve falar em câncer colorretal, a reação costuma ser: “Impossível. Isso é doença de gente mais velha.”

De fato, no passado, a maior parte dos casos ocorria em pessoas acima dos 60. No entanto, os tempos mudaram.

A alimentação moderna, rica em ultraprocessados, a vida sedentária, o estresse crônico e o envelhecimento precoce do organismo estão provocando um aumento alarmante nos casos entre adultos jovens.

Nos Estados Unidos, por exemplo, os diagnósticos em pessoas entre 20 e 39 anos aumentaram mais de 100% nas últimas décadas. No Brasil, o cenário é semelhante.

“Eu nunca pensei que, com 33 anos, teria um câncer de intestino. Eu era jovem, comia fora todo dia, não fazia exames. Me achava saudável. O câncer não se importa com a sua idade.” — Relato de Diego, paciente em tratamento.

Conclusão: Se você tem mais de 30 anos e percebeu sintomas diferentes no seu intestino, não ignore. Cuidar não tem idade mínima.

câncer de intestino

Mito 2: “Se não sinto dor, está tudo bem”

Esse é um dos mitos mais prejudiciais. Há uma crença generalizada de que, se não há dor, não há problema. E, quando falamos de intestino, isso pode ser extremamente perigoso.

O câncer colorretal costuma crescer de forma silenciosa. Durante meses, às vezes anos, ele pode se desenvolver sem causar dor. E quando a dor aparece, muitas vezes é sinal de que a doença já avançou.

Além disso, nem sempre os sinais são “gritantes”. Sangue nas fezes pode vir em pequenas quantidades. Mudanças no ritmo intestinal podem ser sutis. Sensações de cansaço ou emagrecimento, por vezes, são atribuídas ao estresse ou à correria do dia a dia.

Conclusão: Dor não é o único indicador. E, no caso do intestino, não é nem o mais precoce. Aprenda a ouvir os sinais discretos do seu corpo e busque orientação médica sempre que necessário.


Mito 3: “Sangue nas fezes é só hemorroida”

Esse é o mito mais recorrente entre os pacientes diagnosticados tardiamente. A presença de sangue nas fezes é um alerta claro. Mas, infelizmente, muitas pessoas associam automaticamente à hemorroida.

Claro, hemorroidas são comuns. Mas não podemos esquecer que o câncer de intestino também pode causar sangramentos retais — às vezes com o mesmo aspecto visual. Mais ainda: é possível ter hemorroidas e câncer ao mesmo tempo.

“Eu convivi com sangramentos por quase um ano. Achava que eram as hemorroidas que já me incomodavam. Só procurei ajuda quando começou a doer mais. O diagnóstico veio tarde.” — Carla, 51 anos.

Conclusão: Qualquer sangramento anal ou nas fezes deve ser avaliado por um especialista. A automedicação e o “achar que é” podem custar caro.


Mito 4: “Colonoscopia é dolorosa, perigosa ou desnecessária”

Muitas pessoas evitam a colonoscopia por medo do exame. Pensam que será doloroso, embaraçoso ou até perigoso. Algumas até dizem: “Prefiro nem saber”.

Mas a realidade é muito diferente. A colonoscopia é segura, feita com sedação e permite identificar lesões precoces. Além de remover pólipos antes mesmo que virem câncer. É o exame de rastreio mais eficaz para o câncer colorretal.

A colonoscopia é segura, feita com sedação e permite identificar lesões precoces, além de remover pólipos antes mesmo que virem câncer. É o exame de rastreio mais eficaz para o câncer colorretal.

E mais: não fazer a colonoscopia por medo pode ser muito mais arriscado.

A medicina moderna já permite preparo menos desconfortável, anestesia leve e recuperação rápida. É um procedimento de rotina.

Conclusão: O desconforto temporário da colonoscopia não se compara à dor e ao impacto de um câncer avançado. É um exame que salva vidas.

colonoscopia

Mito 5: “O que eu como não tem nada a ver com isso”

Alimentação e estilo de vida são frequentemente ignorados quando se fala em câncer. Existe ainda a ideia de que “a genética determina tudo”, e que “se for pra acontecer, vai acontecer”.

Mas a ciência mostra o contrário.

Mais de 60% dos casos de câncer de intestino estão ligados a fatores modificáveis, especialmente alimentação. Dietas ricas em carnes processadas, gordura saturada, pobre em fibras e vegetais aumentam muito o risco.

Por outro lado, frutas, vegetais, grãos integrais, leguminosas e hidratação adequada têm efeito protetor.

Conclusão: Comer bem é uma forma concreta de prevenção. Seu prato pode ser seu remédio — ou seu veneno.

ALIMENTAÇÃO rica em fibras

O que esses mitos custam? Tempo. E tempo, nesse caso, é vida.

Quando um paciente acredita nesses mitos, o diagnóstico é adiado. Isso impacta diretamente na taxa de cura, pois um câncer descoberto no estágio I tem chances de cura superiores a 90%. No estágio III, essas chances caem para 50–60%. No estágio IV, com metástase, o tratamento já não visa mais a cura, e sim o controle.

Diagnosticar cedo é tratar melhor. É curar com menos sofrimento. É preservar a qualidade de vida.

Um câncer descoberto no estágio I tem chances de cura superiores a 90%. No estágio III, essas chances caem para 50–60%.

No estágio IV, com metástase, o tratamento já não visa mais a cura, e sim o controle.

Diagnosticar cedo é tratar melhor. É curar com menos sofrimento. É preservar a qualidade de vida.


Como saber se está na hora de investigar?

Se você tem 45 anos ou mais, mesmo sem sintomas, a colonoscopia já deve entrar na sua rotina de exames.

Se há histórico familiar (pais, irmãos ou avós com câncer de intestino), o rastreio pode começar antes — conforme avaliação médica.

Além disso, procure ajuda se você observar:

  • Sangue nas fezes;
  • Alterações no formato ou na frequência das evacuações;
  • Sensação de evacuação incompleta;
  • Perda de peso sem motivo;
  • Fadiga persistente;
  • Dor abdominal que não passa.
Intestino grosso
Ilustração da anatomia do intestino grosso.

E se for câncer? Tem tratamento, tem recuperação, tem vida.

O câncer colorretal, mesmo quando diagnosticado, não é uma sentença. Os tratamentos estão mais avançados, com cirurgias minimamente invasivas por videolaparoscopia, quimioterapia eficaz, acompanhamento nutricional e suporte psicológico.

Hoje, os tratamentos estão mais avançados, com cirurgias minimamente invasivas por videolaparoscopia, quimioterapia eficaz, acompanhamento nutricional e suporte psicológico.

Se você reconhecer esses sinais, não hesite em buscar um especialista. O diagnóstico precoce faz toda a diferença.

Muitos pacientes voltam à rotina, reconstroem seus hábitos e ganham uma nova perspectiva de vida. Alguns até dizem que foi “o susto que precisavam para mudar”.

alegria de cura

Quebrar o mito é abrir espaço para a verdade — e para a vida

Você pode não se ver como parte do grupo de risco. Pode achar que é cedo demais, ou que não há sinais.

Mas o câncer de intestino não escolhe apenas pelo histórico — ele também é moldado pelos hábitos, pelo silêncio e pelo medo.

Que este post seja mais do que uma leitura.

Que ele seja um alerta, um convite à ação — e talvez, um começo de prevenção.

Se você conhece alguém que vive repetindo frases como “deve ser só hemorroida” ou “sou jovem demais pra isso” — compartilhe com ele este conteúdo.

Você pode estar ajudando a salvar uma vida.

FONTES E LEITURAS COMPLEMENTARES

  1. American Cancer Society. Colorectal Cancer Facts & Figures 2023–2025. Atlanta: American Cancer Society; 2023. Available at: https://www.cancer.org
  2. Siegel RL, Miller KD, Fuchs HE, Jemal A. Cancer Statistics, 2023. CA Cancer J Clin. 2023;73(1):17–48. doi: 10.3322/caac.21763
  3. Wolf AMD, Fontham ETH, Church TR, et al. Colorectal cancer screening for average-risk adults: 2021 guideline update from the American Cancer Society. CA Cancer J Clin. 2021;71(6):429–460. doi: 10.3322/caac.21647
  4. Dekker E, Tanis PJ, Vleugels JLA, Kasi PM, Wallace MB. Colorectal cancer. Lancet. 2019;394(10207):1467–1480. doi: 10.1016/S0140-6736(19)32319-0
  5. World Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research. Diet, Nutrition, Physical Activity and Colorectal Cancer. Continuous Update Project Expert Report 2018. Available at: https://www.wcrf.org
  6. National Comprehensive Cancer Network (NCCN). Clinical Practice Guidelines in Oncology – Colon Cancer. Version 2.2023. Available at: https://www.nccn.org
  7. Biller LH, Schrag D. Diagnosis and Treatment of Metastatic Colorectal Cancer: A Review. JAMA. 2021;325(7):669–685. doi: 10.1001/jama.2021.0106
  8. Bailey CE, Hu CY, You YN, et al. Increasing disparities in the age-related incidences of colon and rectal cancers in the United States, 1975–2010. JAMA Surg. 2015;150(1):17–22. doi: 10.1001/jamasurg.2014.1756
  9. Câncer de Intestino

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