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Dr. Gedegilson Moisés

Exemplo Comum

Juan tinha 38 anos quando começou a sentir uma “bolsa” na virilha. Era tímido, mas sabia que precisava procurar um médico. Ao ser diagnosticado com hérnia inguinal, o pânico se instalou, principalmente se teria dor crônica após cirurgia de hérnia.

Quem sou eu?

“Curar quando possível, aliviar quase sempre, consolar sempre.” – Hipócrates

Gosto de desafios e, em minha vida profissional, não é diferente. O universo e a complexidade do corpo humano deslumbram-me; no entanto, é no centro cirúrgico que me sinto extasiado com a arte de  oferecer cura através da cirurgia. Cada etapa deste processo ensina-me a ser um ser humano melhor.

Ouvir sobre as dores, angústias, medos, desespero e desilusões dos pacientes, acolhê-los e explicar todo o processo, gerando esperança, traz-me imensa satisfação. Este processo forma um vínculo de confiança enorme, muitas vezes fazendo-me sentir como parte da família dos pacientes.

Ao término de cada cirurgia, mesmo em meio ao cansaço, sobressai o sentimento de regozijo em praticar o dom e a habilidade que Deus me deu para contribuir com as pessoas que me procuram. No final de cada tratamento, vivenciar o antes e o depois, vendo a alegria e a vitalidade em cada um, com sorrisos no rosto, revitaliza a minha alma.

Apresentação pro terno fundo branco

Infelizmente, histórias como a de Juan são comuns — muitas pessoas convivem com o medo da dor crônica após cirurgia de hérnia. Mas há uma verdade ainda mais impactante: a dor e limitação causadas pela hérnia inguinal são, quase sempre, muito piores do que qualquer dor pós-operatória que possa surgir. E essas dores muitas vezes desaparecem com técnica adequada e acompanhamento correto.

A dor crônica após cirurgia de hérnia neste contexto, é aquela que persiste por mais de 3 meses após a cirurgia. Pode ser leve ou debilitante, manifestando-se com queimação, queimor, pontadas ou sensação de peso na virilha — em locais que o paciente chama de “círculo da dúvida” porque nunca sabe se aquilo é normal. Não dá para saber de antemão quem terá dor crônica após cirurgia de hérnia — ela pode aparecer sem aviso, mesmo em pequenas hérnias, independentemente da idade ou sexo.

Dor crônica após cirurgia de hérnia

Um estudo recente com quase 30 mil pacientes revelou que cerca de 17% tiveram dor crônica após cirurgia de hérnia de modo persistente. Outros estudos mostram valores entre 10% e 20%, ou mesmo até 63%, dependendo da técnica usada e da definição de dor. Mesmo com esse risco, vale a pena enfrentar a cirurgia, pois a dor, sensibilidade e limitação causadas pela hérnia ativa são significativamente maiores. Hérnia dói ao caminhar, ao abaixar, ao tossir, ao sentar – limita atividades simples. Já a dor pós-cirúrgica, na maioria das vezes, é transitória, menos intensa, e pode diminuir com tratamento adequado.

As principais causas de dor crônica após cirurgia de hérnia incluem: lesão ou irritação de nervos como o ilioinguinal, iliohipogástrico ou genitofemoral; inflamação ao redor da tela (mesh); e técnicas que não preservam adequadamente a anatomia nervosa. Alguns fatores aumentam o risco de dor crônica após cirurgia de hérnia, como idade mais jovem, ser mulher, hérnias maiores que 3 cm, dor já presente antes da cirurgia e complicações no pós-operatório. Porém, até mesmo pessoas sem nenhum desses fatores podem desenvolver dor. Não há uma fórmula exata.

A escolha da técnica cirúrgica faz muita diferença. Cirurgias laparoscópicas (TEP ou TAPP) costumam apresentar menor taxa de dor crônica após cirurgia de hérnia comparando com as cirurgias abertas, quando realizadas por cirurgiões experientes. Além disso, o uso de cola para fixar a tela, ao invés de grampos metálicos, reduz o risco de irritação nervosa, novamente contribuindo para menores taxas de dor crônica após cirurgia de hérnia. Estudos comparando cola e grampos mostraram 13% de dor crônica com cola, contra 32% com grampos. Técnicas que respeitam a anatomia e preservam nervos são fundamentais para a boa evolução.

É importante lembrar: hérnia inguinal não some sozinha. Ela tende a crescer, gerar desconforto progressivo e, em casos extremos, encarcerar ou estrangular, exigindo cirurgia de emergência. A possibilidade de dor crônica existe, mas a dor e o risco da hérnia não tratada são frequentemente muito maiores. Por isso, a maioria das pessoas se beneficia da cirurgia quando feita no tempo certo.

A história da Anna é um exemplo. Aos 52 anos, ativa, começou a sentir desconforto ao subir escadas. Relutou em operar, até ouvir: “A hérnia pode até não doer agora, mas se não for operada, vai piorar com o tempo. Risco de dor crônica existe, mas com laparoscopia, cola na tela e preservação nervosa, suas chances de viver sem dor são muito maiores.” Anna operou. Teve algumas semanas de sensibilidade, mas em três meses já caminhava e dançava sem dor. O leve peso que sente, segundo ela, é melhor do que a dor que a acompanhava todos os dias.

Para minimizar riscos e dores, é importante: procurar um cirurgião experiente em hérnias, com ampla vivência em técnicas minimamente invasivas; conversar sobre os detalhes da técnica utilizada; fazer um pré-operatório com revisão de hábitos e fatores de risco; e ter um plano pós-operatório com medicação, fisioterapia e retorno gradual às atividades.


Reabilitação ativa: movimento também é tratamento

Após a cirurgia, o repouso inicial é necessário, mas não deve se estender além do tempo recomendado. Um dos maiores aliados na prevenção da dor crônica e na recuperação funcional é o retorno gradual às atividades físicas. Seguir um programa de exercícios físicos regulares, personalizados para cada idade e tipo de hérnia, ajuda a fortalecer a musculatura abdominal, melhora a postura, estimula a circulação e reduz a tensão sobre a região operada. Pacientes com hérnias de grande volume, que exigiram correções extensas, se beneficiam especialmente da fisioterapia orientada, evitando aderências, retrações e recaídas. A dor costuma regredir mais rápido quando o corpo é recondicionado de forma ativa e consciente.

Idoso fazendo exercícios físicos

Entenda melhor os dois tipos de dor após a cirurgia

Nem toda dor é igual. E entender qual tipo você está sentindo pode ajudar o médico a tratar com mais eficácia. Após a cirurgia de hérnia, a maioria dos pacientes experimenta um incômodo leve e localizado, que tende a melhorar com o tempo. Essa é a chamada dor inflamatória, ou nociceptiva. Ela é o resultado natural da cicatrização dos tecidos e responde bem a analgésicos comuns, repouso e reabilitação.

Já a dor neuropática é diferente. Ela não é causada por inflamação, mas sim por uma alteração na sensibilidade dos nervos. Pode vir como uma queimação, uma fisgada repentina, ou até mesmo uma sensação de formigamento na virilha. Muitas vezes, essa dor é persistente e não melhora com os mesmos remédios que funcionam para a dor inflamatória. Por isso, é essencial que o paciente relate essas diferenças na consulta de retorno. Um tratamento bem ajustado depende da boa comunicação entre médico e paciente.

plexo nervoso inguinal
Plexo nervoso da região inguinal

Como se preparar melhor para a cirurgia

Muitos pacientes focam apenas no dia da operação, mas a preparação começa antes. Um pré-operatório bem feito ajuda a reduzir complicações e melhora os resultados. Entre os cuidados recomendados: parar de fumar pelo menos 4 semanas antes, pois o cigarro afeta diretamente a cicatrização; controlar o peso corporal, pois sobrepeso aumenta a pressão abdominal e pode dificultar a recuperação; manter atividade física leve e orientada; ajustar medicações, especialmente anticoagulantes; e realizar avaliação anestésica completa. Essas medidas fazem parte do conceito de “cirurgia segura com preparo multimodal” — e influenciam diretamente na evolução do pós-operatório.

Ilustração da correção de hérnia inguinal
Ilustração da correção de hérnia inguinal com uso de tela

Expectativas no pós-operatório: físico e emocional

Depois da cirurgia, é comum que o paciente sinta dúvidas e até medo. “Será que vai voltar?”, “Será que vai doer para sempre?”, “Estou cicatrizando direito?”. Essas perguntas são normais. O que não pode acontecer é o paciente passar por esse momento sozinho.

A maioria dos desconfortos tende a desaparecer em poucas semanas. Com apoio adequado, a grande maioria volta à sua rotina com conforto e segurança. Além do físico, o lado emocional também precisa de atenção. A dor persistente pode gerar ansiedade, insônia e até tristeza se não for acompanhada de acolhimento. Por isso, escolher um cirurgião com quem se possa dialogar com liberdade é parte essencial do tratamento. Confiança, escuta ativa e orientações claras fazem parte da cura.


Considerações finais

Recuperar-se de uma hérnia não é apenas retirar um caroço da virilha, principalmente quando pensamos na dor crônica após a cirurgia de hérnia, contudo não podemos esquecer que mais que uma cirurgia, pois ela representa retomar o controle da vida: caminhar sem medo, dormir bem, tossir sem se preocupar.

Compare as duas situações: hérnia ativa causa dor diária, limitações físicas, risco de urgência. Cirurgia bem feita causa, no máximo, dor leve e passageira, com alto potencial de cura.

Não há como prever quem terá dor crônica. Mas há como prever o que acontece se a hérnia não for operada. Se você convive com esse incômodo, converse com um cirurgião especializado, que domine técnicas modernas e ofereça uma visão completa do seu caso. Tomar uma decisão informada, no tempo certo, é a chave para sua liberdade.


Fontes e Leituras Complementares

  1. Hérnia Inguinal
  2. Aasvang E, Kehlet H. Chronic postoperative pain: the case of inguinal herniorrhaphy. Br J Anaesth. 2005;95(1):69-76.
  3. Poobalan AS et al. A review of chronic pain after inguinal herniorrhaphy. Clin J Pain. 2003;19(1):48-54.
  4. Alfieri S et al. European guidelines for laparoscopic (TAPP) and endoscopic (TEP) treatment of inguinal hernia. Surg Endosc. 2011;25(10):2773-2843.
  5. Liu Y, et al. Mesh fixation methods and chronic pain in TEP repair: a meta-analysis. Hernia. 2020;24(4):697–706.
  6. Bisgaard T, Kehlet H. Reproducibility and prediction of pain after inguinal herniorrhaphy. Eur J Surg. 2001;167(6):418–421.
  7. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19156440 

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