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Dr. Gedegilson Moisés

Quando o corpo fala em silêncio

Dona Marta tinha 62 anos quando começou a sentir um desconforto estranho após as refeições. Achou que fosse gastrite. Tomava um chá, aliviava por um tempo. Só procurou ajuda quando começou a emagrecer sem querer. Na endoscopia, veio o diagnóstico: câncer gástrico avançado. A notícia caiu como uma bomba, e a pergunta que ecoava era: “Por que não descobri isso antes?”

Quem sou eu?

“Curar quando possível, aliviar quase sempre, consolar sempre.” – Hipócrates

Gosto de desafios e, em minha vida profissional, não é diferente. O universo e a complexidade do corpo humano deslumbram-me. É no centro cirúrgico que me sinto extasiado com a arte de oferecer cura através da cirurgia. Cada etapa deste processo ensina-me a ser um ser humano melhor.

Ouvir sobre as dores, angústias, medos, desespero e desilusões dos pacientes, acolhê-los e explicar todo o processo, gerando esperança, traz-me imensa satisfação. Este processo forma um vínculo de confiança enorme, muitas vezes fazendo-me sentir como parte da família dos pacientes.

Ao término de cada cirurgia, mesmo em meio ao cansaço, sobressai o sentimento de regozijo em praticar o dom e a habilidade que Deus me deu para contribuir com as pessoas que me procuram. No final de cada tratamento, vivenciar o antes e o depois, vendo a alegria e a vitalidade em cada um, com sorrisos no rosto, revitaliza a minha alma.

Terno pro fundo branco

Essa história, infelizmente, não é rara. O câncer gástrico ainda é uma das neoplasias malignas mais letais no Brasil, justamente porque costuma ser diagnosticado tardiamente. Mas a boa notícia é: existe prevenção, existe tratamento e, acima de tudo, existe vida quando o diagnóstico é precoce.


Um pouco de história: o que sabemos sobre o câncer gástrico?

O câncer gástrico já era descrito na medicina desde a antiguidade, mas foi no século XIX, com os avanços da anatomia patológica, que começou a ser mais bem compreendido. A descoberta do Helicobacter pylori nos anos 1980 revolucionou o entendimento da doença, associando a bactéria à inflamação crônica e ao risco aumentado de câncer.

No século XXI, a oncologia avançou muito com o mapeamento genético dos tumores, a criação de novas terapias e técnicas cirúrgicas menos invasivas. Apesar disso, o câncer gástrico ainda representa a quarta causa de morte por câncer no mundo.


O que é o câncer de estômago?

É um tumor maligno que se desenvolve no revestimento interno do estômago. Pode surgir em qualquer região: fundo, corpo ou antro. A maioria dos casos são adenocarcinomas, que se originam nas células glandulares da mucosa gástrica.

Sinais e sintomas do câncer gástrico

Como o câncer se forma? – Fisiopatogenia de forma simples

O câncer se desenvolve quando há um desequilíbrio entre a multiplicação e a morte das células. No estômago, esse processo geralmente começa com inflamações crônicas causadas por gastrite atrófica, infecção por H. pylori, refluxo biliar ou fatores alimentares. Essas agressões levam a alterações progressivas das células, que passam por uma sequência: metaplasia → displasia → câncer.


Aspectos histopatológicos: o que os exames mostram?

Existem dois tipos principais de câncer gástrico do tipo adenocarcinoma, segundo a classificação de Lauren:

  • Tipo intestinal: mais comum, relacionado a fatores ambientais; forma estruturas glandulares semelhantes ao intestino.
  • Tipo difuso: mais agressivo, menos diferenciado, com células que se espalham pelo estômago (como no carcinoma linitis plástica).

Outros tumores menos comuns incluem linfomas gástricos e tumores do estroma gastrointestinal (GIST).


Etiopatogenia: o que causa o câncer gástrico?

Os principais fatores de risco para o câncer gástrico são:

  • Infecção por H. pylori (presente em até 90% dos casos);
  • Tabagismo;
  • Consumo elevado de sal e alimentos defumados/conservados;
  • Histórico familiar;
  • Gastrite crônica atrófica;
  • Cirurgia gástrica prévia;
  • Síndromes genéticas como a síndrome de Lynch e câncer gástrico hereditário difuso.

Médico examinando câncer gástrico

E a genética, tem influência?

Sim. Embora a maioria dos casos seja esporádica, cerca de 1 a 3% dos tumores gástricos têm origem hereditária. Pacientes com mutação no gene CDH1, por exemplo, podem desenvolver câncer gástrico difuso hereditário, que justifica, em alguns casos, até a realização de gastrectomia profilática.


Quais são os sintomas? – O desafio do diagnóstico

A grande armadilha do câncer gástrico é sua evolução silenciosa. Os sintomas iniciais são inespecíficos:

  • Desconforto ou dor abdominal;
  • Sensação de estômago cheio;
  • Náuseas;
  • Perda de apetite;
  • Emagrecimento;
  • Anemia.

Nos estágios mais avançados, pode haver sangramento, vômitos persistentes e dificuldade para engolir.

Seu José achava que estava com úlcera. Nunca gostou de médicos. Um dia, ao perceber sangue nas fezes, resolveu ir. Já era tarde. O tumor ocupava quase todo o estômago. Se tivesse feito uma endoscopia no início, o tratamento seria muito mais simples.


Diagnóstico: como descobrir a tempo?

O exame padrão-ouro é a endoscopia digestiva alta com biópsia. Outros exames que ajudam na avaliação do estadiamento incluem:

  • Tomografia de tórax e abdome;
  • Ultrassom endoscópico;
  • Laparoscopia diagnóstica (em alguns casos);
  • PET-CT (em tumores mais agressivos).
câncer gástrico

Estadiamento: entendendo a gravidade

O estadiamento segue o sistema TNM:

  • T: profundidade de invasão do tumor
  • N: presença de linfonodos comprometidos
  • M: presença de metástases

Isso orienta o tratamento e o prognóstico.


Tratamento: o que pode ser feito?

1. Cirurgia (o tratamento mais curativo e indicado)

O tipo de cirurgia depende da localização e extensão do tumor:

  • Gastrectomia subtotal: quando o tumor está no antro;
  • Gastrectomia total: quando o tumor está em corpo ou fundo;
  • Linfadenectomia: retirada dos gânglios linfáticos regionais.

A cirurgia pode ser aberta ou por videolaparoscopia, com recuperação mais rápida.


Cirurgia vídeo-laparoscópica para câncer gástrico.
Cirurgia vídeo-laparoscópica para câncer gástrico.

2. Quimioterapia

A quimioterapia pode ser:

  • Neoadjuvante (antes da cirurgia): para reduzir o tumor e facilitar a retirada;
  • Adjuvante (após a cirurgia): para eliminar células residuais;
  • Paliativa: quando não há possibilidade de cirurgia curativa.

3. Radioterapia

Menos usada que a quimioterapia, mas pode ser útil em alguns casos, especialmente em combinação com a quimioterapia.


4. Terapias combinadas

Hoje, muitos casos utilizam quimio + radio + cirurgia, conforme protocolos como o FLOT ou CROSS.


5. Cirurgia de resgate

É indicada em alguns pacientes que respondem bem à quimioterapia ou radioterapia e que inicialmente não eram candidatos à cirurgia curativa. É uma tentativa de cura em tumores localmente avançados.


Alimentação no pós-operatório: o que muda?

Após a retirada parcial ou total do estômago, a digestão muda radicalmente. O paciente pode precisar:

  • Comer em pequenas porções várias vezes ao dia;
  • Evitar alimentos muito gordurosos e açucarados;
  • Monitorar sinais de dumping (queda de pressão após comer).

viver saudável escolha
Boas escolhas fazem parte da cura do câncer gástrico.

Suplementação vitamínica: atenção redobrada

A perda do estômago afeta a absorção de várias vitaminas:

  • Vitamina B12 (pela falta do fator intrínseco gástrico)
  • Ferro e cálcio
  • Vitamina D

A suplementação regular é essencial, com acompanhamento médico contínuo.


Como prevenir? A dieta é uma aliada poderosa

Alguns hábitos alimentares podem ajudar a prevenir o câncer gástrico:

  • Reduzir o consumo de alimentos conservados com sal e nitritos (embutidos, defumados)
  • Evitar bebidas alcoólicas e o cigarro
  • Manter uma alimentação rica em vegetais crus, frutas e fibras
  • Combater o H. pylori (teste e tratamento quando indicado)

Estudos apontam que dietas com alto teor de antioxidantes naturais, como vitamina C, selênio e flavonóides, têm papel protetor.

Alimentos protetores:

  • Brócolis, couve-flor, repolho;
  • Frutas cítricas;
  • Alho e cebola;
  • Chá verde.
Alimentos que previnem o câncer gástrico

Um convite à vida: o que você pode fazer hoje?

Muitos casos poderiam ser evitados ou curados se diagnosticados cedo. A partir dos 40 anos, especialmente se há fatores de risco, é prudente conversar com o médico sobre a necessidade de endoscopia. Dor no estômago persistente, perda de peso, náuseas frequentes — não ignore. O corpo fala.

Camila tinha 34 anos e achava que câncer era coisa de idoso. Mas sentia um peso no estômago há meses. Um dia desmaiou de anemia. Fez endoscopia e descobriu um tumor precoce. Fez cirurgia e hoje, três anos depois, está curada. “Foi o medo que me salvou”, ela diz. “Porque me fez ir ao médico.”


Resumindo…

O câncer de estômago ainda assusta, mas não precisa ser uma sentença. Informação salva vidas. Prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento médico são as maiores armas. Cuide-se. Seu estômago pode ser pequeno, mas o impacto da sua saúde é gigante.

FONTES E LEITURAS COMPLEMENTARES

  1. Smyth EC et al. Gastric cancer. Lancet. 2020;396(10251):635–648.
  2. Karimi P et al. Gastric cancer: descriptive epidemiology. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev. 2014;23(5):700–713.
  3. Shah MA. Gastric cancer: screening, diagnosis, and management. Nat Rev Clin Oncol. 2021;18:421–422.
  4. Correa P. Human model of gastric carcinogenesis. Cancer Res. 1988;48(13):3554–3560.
  5. Japanese Gastric Cancer Association. Gastric Cancer. 2021;24(1):1–21.
  6. National Cancer Institute (NCI). Stomach Cancer PDQ. www.cancer.gov
  7. Van Cutsem E et al. Gastric cancer. Lancet. 2016;388(10060):2654–2664.
  8. Rawla P, Barsouk A. Gastric cancer risk and prevention. Clinics in Surgery. 2019;4:2510.
  9. Cancer Research UK. www.cancerresearchuk.org
  10. Importância da Cirurgia Oncológica

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